Jornal do Piauí, Teresina 23/24 de fevereiro de 1986 (dom/2ª feira)
JP-Cultura/ Editor: Ramsés Ramos (1).
Apesar das dificuldades que o compositor, classificado como erudito, tem de enfrentar para sobreviver em nosso país, onde a divulgação e o consumo de música desse padrão é, podemos dizer inexistente, reconhecemos ser o Brasil um país imensuravelmente rico em produção de música erudita. A nossa história é repleta de nomes ilustres, famosos em muitos países do mundo ocidental, possuidores de uma obra com significativo valor histórico-cultural. Deixarei de abordá-lo porque alguns passos já foram dados, EMBORA AINDA DEBILMENTE, no sentido de divulgá-los. Fixar-me-ei, por conseguinte, na música contemporânea brasileira, sem levar o termo “contemporâneo” ao seu sentido técnico-estético, e ficarei com o sentido dado pelos dicionários de que contemporâneo é “o que vive na mesma época”. Assim, para nós, a música contemporânea brasileira é aquela feita hodiernamente, composta por compositores que estão exercendo-se no contexto dos dias atuais.
Por sermos um país de cultura ocidental seguimos naturalmente as principais tendências estéticas do ocidente, todas do século XX. Aqui, a meu ver, um fato fundamental da nossa música atual: em nosso país todas estas tendências convivem livremente. O motivo desta formidável liberdade de expressão reside em dois fatores: uma grande extensão territorial que dificultou, até pouco tempo, a comunicação das informações e, ao fato de pertencermos a um país de um pluralismo técnico-cultural em constante mutação, portanto, ainda em formação indefinida, mostrando-se campo aberto e propício a todas as tendências de correntes e estilos musicais. A simples supressão dessa liberdade de criação ou a sua artificial inibição nos conduziria ao caos, ou empobrecimento capaz de inviabilizar qualquer síntese futura.
A tarefa maior é dos professores e dos críticos, pois, são eles que deverão exercer influência sobre os jovens, no sentido de conduzi-los àquilo que consideram “válido” e“autêntico”, denunciando a sedução exercida pela mediocridade dos epígonos ou a desenfreada ânsia de originalidade a qualquer preço. O que importa mesmo é a aquisição de habilidades artesanais, e, acima de tudo, espaços culturais mais amplos, através de uma sólida cultura geral, de forma que a verdade interior de cada um aflore natural e convincentemente. Do mesmo modo há que se afastar os “modismos” e a servidão a tudo o que vem de fora, como também os horríveis manifestos castradores de verdades universais, cheios de dogmas ditatoriais. A nossa música terá que ser feita por nós que aqui vivemos e trabalhamos. Terá que ser uma espécie de retrato psicológico de nossas contradições, otimismos e pessimismos, angústias e esperanças, certezas e incertezas, sonhos e ilusões. Nesse contexto é que nomes como os de Cláudio Santoro, Francisco Mignone, Guerra Peixe, Camargo Guarniere, José Siqueira, Ernest Widmer, Osvaldo Lacerda, e Ernest Mahle, me vêm à mente , representantes de uma geração com mais de 50 anos. Uma outra, acima dos 40 aí está, traçando e criando os seus próprios espaços e o da música erudita contemporânea brasileira, mais recente.
Parece ter ficado claro, as várias tendências contemporâneas da música erudita universal que convivem pacificamente no Brasil, embora convenhamos, o grande público ou o “povão” dela nada saiba ainda. Aliás, o povo em geral confunde música erudita com música de velório ou de finados, pois os veículos de comunicação de massa só a divulgam na Semana Santa, dia de finados ou quando morre pessoa ilustre e, assim mesmo, a música erudita do passado, barroca, clássica e romântica.
Esse desserviço prestado pelos órgãos de comunicação encontra ressonância nas Instituições de Ensino musical, Universidades e até mesmo em nossas orquestras, pois,
ao cultivarem as obras do passado, com pouquíssimas chances para as do presente (não me refiro apenas a música erudita brasileira, mas a do repertório internacional),
transforma-se em instituições-museus. E aqui reside o maior entrave para o compositor brasileiro de vanguarda.
W. BENJAMIM, analisando o problema da aceitação do que é realmente novo, pela massa, diz que hoje em dia encontramos duas tendências nas massas, igualmente for-tes. De um lado elas aceitam aquilo que lhes é especial e humanamente próximas e, do outro, depreciam o caráter daquilo que lhes é dado apenas uma vez.
As massas preferem um “tonal-modal” a um “atonal”. Claro! O primeiro lhes é próximo, espacial e humanamente, no dizer de W. Benjamim, enquanto o segundo, poderá sê-lo, depois de virar “moda”. Em outras palavras, a civilização atual incorpora em seu mundo espiritual as obras do passado venerando-as pela historicidade que representam. Já as recentes, de linguagens estranhas, só quando, se notabilizarem e virarem algo deglutível.
Diante desse terrível quadro ao compositor erudito caberá “reproduzir obra musical”,
isto é, compor dento de padrões conhecidos ou, “produzi-la numa linguagem inteiramente nova” . A primeira manifestação encontrará patrocinadores com maior facilidade que a segunda.

Isto me faz lembrar um grande Banco que resolveu patrocinar compositores brasileiros contemporâneos eruditos, promovendo a gravações de músicas especialmente compostas em cima de poemas do também contemporâneo CARLOS DRUMOND DE ANDRADE. Tentativa frustrada. Um alto figurão do Banco vetou o projeto, considerando prejudicial a imagem da instituição financeira, os gritos, os sussuros e as “desafinações”, como algo não lucrativo. O importante, no caso, para eles do Banco,é a proposta “bem comportada”. Afinal é melhor um BACH ou um BEETHOVEN, na mão, do que um BÉRIO ou um CAGE voando (2).

Do ponto de divulgação temos ainda muito que progredir. O próprio sistema de ensino falha não possibilitando informações adequadas aos educandos, deixando de assessorar o processo. Nos países desenvolvidos, capitalistas, é o governo e as grandes empresas, de mãos da dadas, que FINANCIAM projetos de arte: orquestras, escolas de música, edição de livros, partituras musicais e discos. O próprio sistema de ensino favorece a divulgação, criando corais e orquestras nas escolas, formando público ouvinte e despertando e orientando vocações. Nos países socialistas é o Estado o grande mecenas.
No Brasil existe experiência do INM-FUNARTE que tem, ultimamente, favorecido o processo de produção de música erudita brasileira através de concursos e edições de discos e partituras. Mas em compensação, falha o resto. Pouquíssimas empresas não se dão conta de quão úteis poderiam ser, e o governo, de um modo geral, também falha, pois ele só patrocina aquilo que lhe dá IBOPE e, consequëntemente, lucro ou retorno imediato. Ele prefere patrocinar duplas caipiras ou “pseudos” festivais folclóricos, numa espécie de populismo, ao patrocínio de outro tipo de arte, ou, o que seria melhor, ao patrocínio sério do ensino das artes.
Não desejamos, em hipótese alguma, um posicionamento musical contra as duplas caipiras ou os festivais folclóricos. Ao contrário, somos apreciadores de manifestações artísticas populares e/ou folclóricas. Somos contrários ao patrocínio de “fachada”, que visa fazer média com o povo sofrido, dando-lhe circo, ou o patrocínio abusivo e impatriótico de se gastar milhões com “tournés” de grandes orquestras, quando o mais patriótico e cívico seria criar condições favoráveis ao ensino, financiando núcleos em universidades e/ou Secretarias de Educação, que tivessem uma equipe de pelo menos 10 musicistas para, a partir daí, criar-se o hábito comunitário de concertos públicos, periódicos e, sobretudo, reforçar as escolas de mùsica com ensino musical aos jovens que formarão, num futuro próximo, a orquestra local.
O processo de comunicação com o público torna-se, em função do que acabamos de dizer e, dos fatores que apontaremos a seguir, cada vez mais difícil.
Para existir um bom samba, basta uma voz e uma caixa de fósforos. Com a música erudita não ocorre o mesmo, pois ela exige de quem a ouve, certo nível de informação a respeito, curiosidade intelectual e disponibilidade mental para participação. E não há aqui nenhum preconceito econômico ou de classe. Ao contrário, pessoas de nível cultural menos favorecido apresentam tais pré-requisitos, desde que recebam um mínimo de oportunidade, em escala maior que pessoas de nível social mais elevado ou, por que não dizer, até mesmo ricas.
Outros fatores que dificultam a comunicação da música erudita provêm dos veículos de comunicação. Por exemplo: o alto treinamento individual e de conjunto que exige dos executantes, horas a fio de estudo, por toda a vida; o elevado preço dos instrumentos musicais (e de acessórios), geralmente de origem estrangeira, inacessíveis devido ao preço, ao nosso músico e, locais apropriados para a realização de ensaios e concertos.
Creio, finalmente, que só um esforço conjugado de todos nós, aliados à esperança de melhores dias, onde educação e cultura assumam caráter de seriedade nacional, possibilitará mudança de situação.
Enquanto isso não ocorrer, o jeito é nos arregimentarmos em busca de uma unidade de pensamentos que propicie algum avanço. Ou então lembrar CAMÕES e com ele repetir: “Vi nenhum contentamento, e vejo-me a mim, que espalho tristes palavras ao vento”
1. RANSÉS RAMOS – Foi “músico, jornalista, crítico de Arte, poeta, diretor teatral, tradutor e advogado. Faleceu aos 35 anos, vítima de um acidente ocorrido no banheiro de seu quarto em um hotel na cidade de Moscou (RÚSSIA), após uma queda que provocou hemorragia interna. O músico-poeta estava em missão oficial do Supremo Tribunal de Justiça, órgão em que exercia a função de Chefe Cerimonial”. Dados extraídos do tablóide publicado pelo Sindicato dos Músicos do Estado do Piauí, em novembro de 1998.
2. Luciano Berio e J. Cage, compositores contemporâneos, de vanguarda.
Um comentário:
Olá, este post está excelente! Quando você coloca que o sistema brasileiro é falho na questão cultural, faz-me lembrar da falta de livros, de literatura em diversas áreas, e isso é um problema gerado a partir da falta de leitura. O hábito de ler é tão menosprezado, que só em Buenos Aires há mais livrarias que bibliotecas no Brasil inteiro. Isso nos intristece, mas nada que pessoas com ideias ímpares não possam mudar aos poucos. Parabéns pelo blog, Até.
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